Fragmentos de um Corpo Rígido, 2013

 

“O rio está lá o tempo todo (feito o mundo que nos cerca), mas as suas águas mudam a todo instante (como os tempos, que também mudariam)... Numa beira de rio você entende: não é o tempo que passa, mas as águas. Chamamos tempo a esse deslocamento ininterrupto da matéria sobre a matéria” (BUCCI; 8 X FOTOGRAFIA, 2008, P.72)  

 

A ideia do trabalho surge do texto de Eugênio Bucci inserido no livro “8 X Fotografia” citado acima. As imagens retratam o movimento que o tempo e realidade exercem sobre o instante. Em “Fragmentos de um Corpo Rígido” ocorre através da fragmentação da pose fotográfica dada em cena expondo a potência de mutabilidade próprias do tempo e a realidade, trazendo a variedade de forças presente no “momento”, onde numa mesma captura se tem a visão em diversos ângulos, ambientes e luzes.

 

Em cada fragmento dentro da imagem podemos tirar uma informação diferente da outra, mas ao mesmo tempo numa visão geral de todos se faz uma leitura única e assim trazendo um sentido híbrido. Como se havendo numa adição de variáveis, um só caminho e sentido como resultado. Trazendo o resultado do breve momento de presente onde apenas uma possibilidade pode ter sucesso enquanto as outras perdem a potência. Nesse propósito se tem como referência o trabalho de Pablo Picasso em sua fase cubista e Marcel Duchamp com seus trabalhos futuristas onde na verdade seguiam caminhos de pesquisa diferentes um do outro.

 

A medida que Picasso estuda o tempo através da explosão da potência de possibilidades inseridas neste. Como no caso de “Les Demoiselles d’Avignon” de 1907 em que temos um corpo que aparece de costas e tendo o rosto de frente que se encontra no canto inferior esquerdo do quadro. Já de outra forma temos no futurismo de Duchamp em por exemplo “Nu Descendo a Escada” de 1912. Que em contra ponto a Picasso, a sensação de movimento se dá clara pelo rastro ocorrido.  

 

“As Figurações de Picasso atravessam velozmente o espaço imóvel da tela; nas obras de Duchamp o espaço caminha, se incorpora e, tornando máquina filosófica e hilariante, refuta o movimento com o retarde, o retarde com a ironia. Os quadros do primeiro são imagens; os do segundo, uma reflexão sobre a imagem.” (PAZ; Marcel Duchamp e o Castelo Da Pureza, 2008, p. 50)  

 

Dada esta diferença. Em estudo meu “Fragmentos de um Corpo Rígido” comunica-se mais com Picasso por explodir com as potências, mas visualmente ainda guarda semelhança a Duchamp. Gombrich explica a motivação existente no Cubismo que assume o papel de construtor ao invés de replicador para retratar o mundo:  

 

“Se pensarmos num objeto, digamos, um violino, ele não se apresenta ao olho da nossa mente tal como o vemos com os olhos do nosso corpo. Podemos pensar e, de fato, pensamos em vários aspectos ao mesmo tempo.” (GOMBRICH; A HISTÓRIA DA ARTE, 2009, p. 574).  

 

Assim como os cubistas, esta técnica para retratar as informações acima citadas necessita de um cuidado a mais. No ponto que há de se utilizar basicamente formas icônicas para que no objeto final da obra faça ainda relação com o referente. Por este motivo escolha a forma de mais forte referencia em nós. Nosso próprio corpo.

 

A Respeito de Barthes a imagem evoca a justa posição mencionada por ele de leituras. A banal, tida por qualquer indivíduo e a singular, que é visualizada apenas pela relação pessoal. Onde numa primeira vista a imagem é apenas a conjuntura de pequenas outras cenas, porém pela pose, luz, sequência e contexto, terá um sentido pessoal a cada.

 

De contra posição a Barthes, o trabalho vem-se defender o não-compromisso como objeto de confiança como documento de realidade, dado que se afasta da represetanção mimética do índice no movimento que trás a questão conceitual das possibilidades inseridas no momento.  

 

“A Fotografia é uma evidência forçada, carregada, como se caricaturasse, não a figura daquilo que representa (é bem o contrario), mas a sua própria existência... Ora, na fotografia, o que eu estabeleço não é apenas a ausência do objeto; é também, simultaneamente e na mesma medida, que esse objecto existiu realmente e esteve lá, onde eu o vejo.” (BARTHES; A CÂMARA CLARA, 2006 p.126)